Tenho marcado na memória o dia em que eu e o teu dono te fomos ver pela primeira vez.
Vieste a correr, desceste as escadas e sentaste-te ao nosso colo!
Primeiro ao colo do dono e depois de uma trinca nas minhas mãos sentaste-te ao meu colo (hoje com os teus 45kg ainda tentavas sentar-te ao nosso colo do mesmo jeito).
Não resistimos, queríamos ficar contigo.
No início não foi fácil, tivemos medos, medo de não termos condições para te ter porque naquela altura a nossa vida ainda era uma montanha russa. Mas o amor que ganhámos por ti dia após dia e a ajuda da avó Gina fizeram todos os medos evaporarem-se e tornarem-se apenas em alegria.
A avó Gina tratou de ti sempre que nós não estávamos, apanhou muito cocó e xixi que fizeste espalhado pelo quintal, ralhou contigo quando destruías a roupa do estendal... foram lençóis, toalhas, camisolas e t-shirts do dono. Roeste cadeiras, casotas, pedras, a vedação e até a parede da casa. Mordias tudo, os meus pés, os sapatos, as nossas mãos... ainda me lembro quando fui toda arranhada e mordida de ti para o trabalho.
A primeira dor que nos deste foi quando foste castrado. Tinha de ser por causa da tua raça. A verdade é que nos custou mais a nós por te termos visto com o efeito da anestesia... mas uns dias depois esqueceste o que te fizemos, uns dois dias foram o suficiente para esqueceres o sofrimento horrível que deves ter passado sem compreender nada. Dois dias bastaram para nos perdoares na culpa que não tínhamos, mas que tu não sabias. Dois dias para voltares a amar incondicionalmente e sem remorsos, sem ressentimento.
Chegaste a ter medo dos gatos (sim deixaste um gato comer-te a ração quando eles ainda eram maiores que tu) andaste atrás das galinhas e dos patos. E ainda conheceste o "Farrusco" sofreste com a morte dele, eu sei...
Foste crescendo fomos contigo a encontros de cães para socializares e conheceste muitos amigos... mas a melhor amiga que tens é a Naevia. No primeiro dia que a levámos não lhe achaste muita piada, e verdade seja dita tu és bruto com ela, mas... ela adora-te. Foste tu que lhe deste confiança que a fizeste ser a cadela linda e confiante que é. Mas ela respeita-te acima de tudo. Às vezes sofre um bocadinho contigo, mas ela adora-te.
Fomos fazer treinos convosco porque começaste a ficar casmurro e sem nos ouvir. Começámos a entender melhor como lidar com o teu feitio e com os teus comportamentos e cada dia que passava fomos ficando mais e mais próximos dessa tua maneira de Rott.
Fomos a barragens contigo, a parques, praia... tu adoravas andar solto; mas esse teu feitio não é o melhor e portanto tínhamos de ir para sítios sem muito movimento porque tu achas que és o Rei da Selva, mas só fora de casa.
Mudámos para a nossa casa. No início não percebias o que eram janelas e muito menos portas de vidro. Roeste a vedação para chegar às ervas, porque tu adoras comer ervas, sabe-se lá porquê!
Demoraste uns meses a perceber que no quintal não se faz asneiras (ainda hoje não sabes).
Adoras dormir ao sol no nosso quintal, adoras brincar com o Xurro e adoras correr ao meu lado (sim porque o dono dá cabo de ti a correr então preferes correr comigo).
Adoras o dono, dás-lhe abraços quando ele diz que te leva à rua, quando te diz que és um cão bem comportado e quando corre a brincar contigo.
Adoras os meus mimos, tens medo quando ralho contigo mas dás-me beijos nas mãos a pedir festas. Adoras os meus beijos no focinho e adoras quando te damos água da torneira.
Não gostas de ossos de plástico, não gostas de luvas e não gostas quando lavo o quintal.
Adoras cenoura, maçã, banana, couves, pepino... adoras tudo o que eu tenha na cozinha quando lá passas a cheirar/aspirar o chão (mesmo sabendo que eu não gosto que vás para a cozinha).
Adoras cobertores, mas também adoras destruí-los.
Adoras dar beijos daqueles cheios de baba e adoras relva.
Não sabes mastigar, para ti comer é engolir o mais rápido possível qualquer coisa que te dão à boca.
Quando estamos doentes sentes... e dás-nos beijinhos.
Adoras encostar o nariz à janela para nos veres melhor. Não páras em casa porque tu adoras o quintal.
Odeias gatos e cães pequenos. E labradores beige... que obsessão!
Achas que és o maior na rua, mas em casa és o maior maricas e mimado à face da terra.
Adoras festas nas orelhas e na barriga e odeias que te toquem no rabo (a não ser que seja eu ou o dono).
Tens 3 tipos de ladrar: O ladrar de desconhecido, o ladrar de gatos e o ladrar de parvoíce.
Dás arrotos depois de comer que o bairro todo consegue ouvir.
Odeias usar o açaime e pedes para o tirarmos. Odeias ir ao Veterinário e não deixas que te tirem a temperatura.
Talvez por tudo isto eu julgava que nada te poderia mandar abaixo, que nada te poderia acontecer, julguei que pudesses ser imortal.
Mas não és. Posso dizer que ver como te vi este fim de semana foi um dos piores momentos da minha vida, aliás das nossas vidas. Eu e o dono sentimo-nos impotentes. Não sabíamos o que fazer...
Levámos-te a um sítio que odeias, deixámos que te fizessem coisas que odeias... mas quero que saibas que é tudo para o teu bem! Para ficares bom outra vez! Para voltares para a Naevia, para o Sol do teu quintal e para a Relva que tanto adoras...
Quero que saibas que tudo o que estiver ao nosso alcance iremos fazer só para voltarmos a estar mais uns bons anos ao teu lado.
Quem não tem, ou nunca teve um cão provavelmente não compreende. Não consegue compreender como se consegue gostar tanto de um animal, que para mim é muito mais que isso. Não tenho filhos, mas gosto dele como se fosse um.
Temos saudades Crixus. Fica bom rápido!
Quem não gosta de animais, nunca conseguirá entender. Lumalta
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